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A pseudo multa...

Saímos de Meknés, depois do almoço na Praça el-Hedime, em direcção a Fez, onde planeávamos ficar duas noites. Meknés é feia e suja, com prédios construídos desordenadamente e parabólicas em todo o lado. A saída é caótica: uma estrada com duas faixas em cada sentido, semáforos atrás de semáforos, carros, camiões, carroças, burros e peões à mistura. Imagine-se um IC19 com todo este rol de transeuntes... E lá seguimos nós, em fila, na faixa mais à esquerda, atrás de uma carrinha alta e grande. O pára-arranca devido aos semáforos era uma constante e, enquanto estávamos parados num semáforo, vimos um polícia a atravessar a estrada para o nosso lado e a fazer-nos sinal para encostarmos. Aguardámos que o sinal abrisse e andámos uns 7 ou 8 metros até ao local onde o agente se encontrava. Segundo o senhor, tínhamos passado o vermelho no semáforo anterior... Alegámos que se a carrinha que vinha à nossa frente passou o verde, nós, na pior das hipóteses, passámos o amarelo. Insistimos que não nos tínhamos apercebido que tivéssemos passado o vermelho e ele insistiu que sim. A multa seriam 400 dirhams (cerca de 40 euros). Como estava muito calor e a discussão acesa, o agente sugeriu continuar a conversa debaixo de uma árvore do outro lado da estrada, e logo colocou a questão: "et maintenant, qu'est-ce qu'on va faire...?" De imediato deu a resposta: "Pagam 100 dirhams e vão à vossa vida". E assim foi, em vez de 400 dirhams para o estado, 100 dirhams para os dois agentes que ali estavam de serviço. É assim que trabalham os polícias (mal pagos, é certo) num país cuja principal actividade económica é o turismo: abordam os turistas, espetam-lhes com uma multa por um motivo pouco ou nada convincente e fazem-lhes um desconto de 75%...

Meknés, cidade imperial

Meknés foi fundada no século X, mas foi sempre uma cidade pequena ensombrada por Fez, sua vizinha e rival. Só no reinado do Mulei Ismail, em 1672, Meknés se tornou cidade imperial. O sultão realizou projectos arquitectónicos em grande escala, construindo portas, muralhas, mesquitas e palácios, tendo a cidade sido descrita como a Versailles de Marrocos. No entanto, estes ambiciosos projectos levaram à expoliação de outros monumentos, como as ruínas romanas de Volubilis e o palácio el-Badi, em Marraquexe, onde o Mulei Ismail se "abasteceu" de materiais de construção, destruindo património de valor incalculável... Ficam aqui alguns registos de portas e muralhas monumentais:

O primeiro lugar de culto construído pelo Mulei Ismail foi a Mesquita Lalla Aouda, em 1680, que é um dos poucos projectos do sultão que permanecem intactos: A cidade tem três zonas: a Medina, a Cidade Imperial e a Ville Nouvelle. Apesar de termos passado pela parte nova da cidade, no dia anterior, aquando da nossa chegada, dedicámos a visita apenas à medina e a parte da cidade imperial, pois o tempo era escasso. Entrámos na Praça el-Hedime, uma praça extensa com algumas lojas e cafés, que fica no início da Medina, onde nos aventurámos logo de seguida.

Como qualquer medina, a de Meknés também é um tanto ou quanto labiríntica e decidimos percorrer as ruas, sem rumo, simplesmente a apreciar os marroquinos e o seu modo de vida: vender tudo e mais alguma coisa! As ruas enchem-se de gente, de cores, cheiros e sons. Aliás, a música é constante:

Os marroquinos são vendedores por natureza, é a única coisa que sabem fazer, e é impressionante ver como algumas pessoas subsistem a vender as coisas mais surreais.
E em qualquer canto ou esquina montam a sua pequena banca...

Para além do mercado que se faz, diariamente, na Medina, Meknés tem um grande mercado coberto, à semelhança dos mercados que existem em qualquer outro local. Aqui também se encontra de tudo um pouco, mas essencialmente produtos alimentares. Há bancas coloridas e meticulosamente arrumadinhas:

E, por outro lado, há outras que denotam a inexistência de uma ASAE por terras marroquinas...

O vizinho do lado direito vende ovos e galinhas vivas, enquanto o do lado esquerdo as vende já depenadas... Não sei com que finalidade, mas aqui aproveitam-se todas as partes do gado...

O passeio pelo mercado deve-nos ter aberto o apetite e passámos pela Praça el-Hedime para almoçar e retemperar forças para a viagem até Fez, onde iríamos passar a noite, esperando que desta vez a tarefa de encontrar um parque de campismo fosse mais fácil. Mapa na mão e seguimos em direcção à saída de Meknés.

Mas não poderíamos deixar esta cidade sem uma boa aventura para contar. Próximo episódio: encontro imediato com a polícia marroquina...

Camping Belle Vue, Meknés

Acordámos relativamente cedo e começámos a arrumar a tralha, não sem antes tomar um pequeno almoço consistente. Antes de seguir rumo a Meknés, demos umas voltas pelo parque de campismo, com o proprietário como guia, a mostrar-nos as obras de melhoramento e os terrenos anexos que tinha adquirido com a intenção de ampliar as instalações.

Havia um restaurante e um bar inactivos com umas esplanadas com fontes e fontezinhas, decoradas com mosaicos geométricos. Parecia tudo abandonado, com vegetação a crescer, desordenadamente, por todo o lado. Subimos a uma das varandas panorâmicas de onde se podia avistar Meknés, pois o parque ficava numa zona mais alta e a cidade numa longa planície, bem como campos imensos de oliveiras.

Despedimo-nos do simpático senhor e saímos em direcção a Meknés. Fica aqui o registo da abordagem do não-tão-simpático cão de guarda do Parque de Campismo...

Chegada a Meknés

Chegámos a Meknés ao final da tarde. Procurávamos um parque de campismo e acabámos, sem querer, por entrar para o centro da cidade. Sabíamos que havia (ou tinha havido) um parque de campismo no centro, mas não conseguimos encontrar qualquer indicação. Andámos completamente perdidos por avenidas enormes de trânsito caótico e decidimos parar para pedir orientações a um polícia. Como não tinha conhecimento de nenhum parque de campismo por ali, pedimos-lhe indicações para um posto de turismo. Num francês um tanto ou quanto estranho, disse-nos qualquer coisa como isto: "no décimo segundo semáforo viram à direita, depois no nono semáforo viram novamente à direita e depois no sexto à esquerda."

Bem, lá fomos avenida acima a contar semáforos e, como é óbvio, perdemo-nos no meio de tanto semáforo e pseudo-semáforo. Acabámos por encontrar a enorme praça onde, supostamente, estaria situado o posto de turismo, mas já não estava. Tinha mudado as instalações sabe-se lá para onde. Ao menos ficámos a conhecer esta praça, denominada Place Administrative, que de outra forma, provavelmente, não conheceríamos. Ficava na "Ville Nouvelle" e, como íamos dispender apenas de uma manhã para visitar Meknés, optámos pela Medina e pela Cidade Imperial.

Decidimos então sair da cidade e procurar um outro parque de campismo que sabíamos ficar a cerca de 14 km de Meknés, na estrada para Moulay Idriss. Atentos ao conta-quilómetros lá fomos nós em busca do parque perdido e, depois de nos perdermos novamente e de passarem mais de 14 km, fizemos inversão de marcha e encontrámos um pequeno parque, com um certo ar de abandonado, de seu nome "Belle Vue".

Estava a preparar-se para o início da época alta, a fazer algumas obras e ainda sem electricidade, explicou-nos o simpático proprietário que se prontificou logo para puxar uma extensão de um gerador, para a nossa tenda. Ainda nos arranjou uma mesa e duas cadeiras para montar esplanada. Os únicos ocupantes do parque eram dois rapazes, cada um com uma Renault 4L de matrícula francesa.

As casas-de-banho tinham louças e azulejos novos, mas o trabalho dos pintores foi tão eficiente, que se avizinhava ali uma tarefa árdua para retirar os milhares de pingos de tinta branca espalhados pelos azulejos, pelo chão e pelas louças... A noite já estava a cair e, depois de montarmos a tenda, começámos a preparar uma refeição quentinha, que caiu que nem ginjas, depois de um dia inteiro a comer sandes e fruta. E, finalmente, o merecido descanso, depois de uma longa jornada... hora para relembrar a viagem e ver as fotos do dia.

Uma bela noite de primavera, no meio do campo, a respirar ar puro, na nossa caminha de férias. Acampar é de mais! Seguiram-se umas belas horas de descanso merecido, até o sol raiar...