A medina e os "souks" de Fez

Entrámos na medina El-badi, a parte mais antiga da cidade de Fez, por uma das portas que transpõem os 25 km de muralhas. As suas mais de 9000 ruas e ruelas labirínticas fazem deste o maior espaço urbano livre de carros, a nível mundial. Segundo se consta, até mesmo as 500 mil pessoas, que ali vivem e trabalham, se perdem, por vezes. No entanto, confiámos no Mahomed para nos guiar pelos locais que pretendíamos visitar e levar-nos de volta à entrada, pois claro...
E lá fomos, deambulando pelas ruas, muitas delas verdadeiros centros comerciais, onde tudo se vende, e centros artesanais, onde tudo se fabrica. Vêem-se imensas oficinas, de porta aberta, que nos mostram os trabalhos diversos dos artesãos de Fez, desde o fabrico de portas e janelas de madeira esculpida, tecelagem em teares manuais, artigos em couro ou ferro forjado, etc.
Os souks estão localizados segundo uma hierarquia, atribuída aos diversos produtos que neles se vendem. Os ofícios estão agrupados e cada um tem a sua rua. Assim há souks destinados a:
Tecidos
Artigos em pele
Tapetes Artigos em cobre ou latão E aos mais diversos produtos alimentares, alguns, porém, de aspecto duvidoso...
Queijo fresco

Cereais e leguminosas

Ovos e cereais

Caracóis
Carne Peixe
Produtos não identificáveis... E ainda fruta, que decidimos comprar para o lanche.

Mohamed, o guia da Medina de Fez

Acordámos cedinho e dirigimo-nos para Fez, a segunda maior cidade de Marrocos, com cerca de um milhão de habitantes (a maior é Casablanca com mais de três milhões).
Apercebemo-nos logo que não seria fácil chegar à Medina, pois a sinalização não era das melhores e as nossas 2 ou 3 tentativas para pedir indicações sairam furadas, pois não encontrámos ninguém que falasse uma língua europeia... Decidimos, então, estacionar o carro numa avenida conhecida (para que depois fosse fácil encontrá-lo) e apanhar um "petit taxi" para a medina. Em Fez os táxis são vermelhos e, como por todo o país, da marca "Fiat Uno", com uns 15 ou 20 anos.
Assim que saímos do táxi, um rapaz com os seus 17 ou 18 anos (já com bigode), abordou-nos oferecendo os seus préstimos como guia, o que aceitámos de imediato, pois a medina de Fez, mais do que qualquer outra em Marrocos, é conhecida por ser labiríntica, ou não fosse o maior espaço urbano, a nível mundial, livre de carros (motorizados, porque carroças não faltam). Acordámos um preço, 50 dirhams (cerca de 5 euros) e o Mohamed prometeu mostrar-nos tudo aquilo que pretendíamos ver, em cerca de três horas. Ainda disse que no final, se gostássemos, podíamos dar mais qualquer coisinha... O rapaz falava uma mistura de Espanhol, Francês e Inglês. Não falava bem nenhuma das línguas, mas conseguia fazer-se entender em quase tudo o que pretendia dizer, começando uma frase numa língua e terminando noutra, com palavras de uma terceira pelo meio. A falar é que a gente se entende... Ah, e no final, em vez de 50, demos-lhe 80 dirhams.

Camping Diamant Vert, Fez

Chegámos às imediações de Fez e procurámos o Parque de Campismo Diamant Vert, que ficava a poucos quilómetros da cidade. Não foi difícil encontrá-lo e ficámos logo deslumbrados com o lugar, fazia jus ao nome e tinha verde por todo o lado: muitas árvores, espaços relvados e jardins. No meio do arvoredo, um grande lago artificial estendia-se ao longo do parque.
Montámos a tenda e fomos dar uma volta para conhecer o parque, que nos parecia extenso. E era mesmo. Ao fundo da zona de campismo tinha várias piscinas e escorregas dos quais podíamos usufruir. Era uma espécie de parque aquático, muito concorrido durante os meses de verão, segundo nos informaram na recepção. Havia umas 7 ou 8 piscinas, algumas com escorregas, outras infantis, mas a maior parte ainda vazia e em manutenção. Apenas uma grande piscina se encontrava aberta e falámos logo em passar por lá no dia seguinte, durante a tarde, pois o sol já se estava a pôr e estava um tanto ou quanto fresquinho para mergulhos.
Continuámos o nosso passeio até ao restaurante do parque, que mais parecia um salão de baile. Na parte exterior havia um palco fixo, com um pequeno anfiteatro, onde se deviam fazer grandes festas no verão. Um pouco mais à frente um repuxo em forma de pirâmide jorrava água por todos os lados.
Atravessámos a ponte do lago e demos com um parque infantil, onde não resistimos a andar nalguns baloiços e tirar a foto para a posteridade. A passear pelo parque, com a maior naturalidade, viam-se alguns animais, essencialmente patos e gatos. Aproximavam-se de nós, sem qualquer receio, demonstrando estarem já bastante habituados aos campistas.
No Parque de Campismo de Meknés tivémos um "Cão Danado", neste tivémos um "Pato Bravo"...

Voltámos para a tenda e começámos a fazer o jantar, que já se fazia tarde. Preparámos uma bela pasta de atum e cogumelos e deliciámo-nos a comer. A noite estava a cair e aqui e ali, ao longo do lago, ouvia-se uma ou outra rã a coaxar. Um gatinho branco e amarelo aproximou-se da tenda e andou a meter o bedelho no alguidar da louça. Decidimos, então, adoptá-lo por dois dias. Ainda tivemos a tentação de o trazer, mas achámos que poderia haver algum entrave na fronteira. Afinal de contas, era mais um imigrante clandestino sem qualquer documento, que abandonaria África e tentaria entrar na Europa...
O som das rãs, à medida que anoitecia, foi-se tornando cada vez mais intenso e à hora em que nos fomos deitar era já ensurdecedor... Como é que íamos adormecer com aquele barulho surreal de dezenas (ou centenas) de rãs!?! Não foi fácil e aqui fica uma pequena amostra (gravada no interior da tenda...). Só ouvido, contado ninguém acredita...

A pseudo multa...

Saímos de Meknés, depois do almoço na Praça el-Hedime, em direcção a Fez, onde planeávamos ficar duas noites. Meknés é feia e suja, com prédios construídos desordenadamente e parabólicas em todo o lado. A saída é caótica: uma estrada com duas faixas em cada sentido, semáforos atrás de semáforos, carros, camiões, carroças, burros e peões à mistura. Imagine-se um IC19 com todo este rol de transeuntes... E lá seguimos nós, em fila, na faixa mais à esquerda, atrás de uma carrinha alta e grande. O pára-arranca devido aos semáforos era uma constante e, enquanto estávamos parados num semáforo, vimos um polícia a atravessar a estrada para o nosso lado e a fazer-nos sinal para encostarmos. Aguardámos que o sinal abrisse e andámos uns 7 ou 8 metros até ao local onde o agente se encontrava. Segundo o senhor, tínhamos passado o vermelho no semáforo anterior... Alegámos que se a carrinha que vinha à nossa frente passou o verde, nós, na pior das hipóteses, passámos o amarelo. Insistimos que não nos tínhamos apercebido que tivéssemos passado o vermelho e ele insistiu que sim. A multa seriam 400 dirhams (cerca de 40 euros). Como estava muito calor e a discussão acesa, o agente sugeriu continuar a conversa debaixo de uma árvore do outro lado da estrada, e logo colocou a questão: "et maintenant, qu'est-ce qu'on va faire...?" De imediato deu a resposta: "Pagam 100 dirhams e vão à vossa vida". E assim foi, em vez de 400 dirhams para o estado, 100 dirhams para os dois agentes que ali estavam de serviço. É assim que trabalham os polícias (mal pagos, é certo) num país cuja principal actividade económica é o turismo: abordam os turistas, espetam-lhes com uma multa por um motivo pouco ou nada convincente e fazem-lhes um desconto de 75%...

Meknés, cidade imperial

Meknés foi fundada no século X, mas foi sempre uma cidade pequena ensombrada por Fez, sua vizinha e rival. Só no reinado do Mulei Ismail, em 1672, Meknés se tornou cidade imperial. O sultão realizou projectos arquitectónicos em grande escala, construindo portas, muralhas, mesquitas e palácios, tendo a cidade sido descrita como a Versailles de Marrocos. No entanto, estes ambiciosos projectos levaram à expoliação de outros monumentos, como as ruínas romanas de Volubilis e o palácio el-Badi, em Marraquexe, onde o Mulei Ismail se "abasteceu" de materiais de construção, destruindo património de valor incalculável... Ficam aqui alguns registos de portas e muralhas monumentais:

O primeiro lugar de culto construído pelo Mulei Ismail foi a Mesquita Lalla Aouda, em 1680, que é um dos poucos projectos do sultão que permanecem intactos: A cidade tem três zonas: a Medina, a Cidade Imperial e a Ville Nouvelle. Apesar de termos passado pela parte nova da cidade, no dia anterior, aquando da nossa chegada, dedicámos a visita apenas à medina e a parte da cidade imperial, pois o tempo era escasso. Entrámos na Praça el-Hedime, uma praça extensa com algumas lojas e cafés, que fica no início da Medina, onde nos aventurámos logo de seguida.

Como qualquer medina, a de Meknés também é um tanto ou quanto labiríntica e decidimos percorrer as ruas, sem rumo, simplesmente a apreciar os marroquinos e o seu modo de vida: vender tudo e mais alguma coisa! As ruas enchem-se de gente, de cores, cheiros e sons. Aliás, a música é constante:

Os marroquinos são vendedores por natureza, é a única coisa que sabem fazer, e é impressionante ver como algumas pessoas subsistem a vender as coisas mais surreais.
E em qualquer canto ou esquina montam a sua pequena banca...

Para além do mercado que se faz, diariamente, na Medina, Meknés tem um grande mercado coberto, à semelhança dos mercados que existem em qualquer outro local. Aqui também se encontra de tudo um pouco, mas essencialmente produtos alimentares. Há bancas coloridas e meticulosamente arrumadinhas:

E, por outro lado, há outras que denotam a inexistência de uma ASAE por terras marroquinas...

O vizinho do lado direito vende ovos e galinhas vivas, enquanto o do lado esquerdo as vende já depenadas... Não sei com que finalidade, mas aqui aproveitam-se todas as partes do gado...

O passeio pelo mercado deve-nos ter aberto o apetite e passámos pela Praça el-Hedime para almoçar e retemperar forças para a viagem até Fez, onde iríamos passar a noite, esperando que desta vez a tarefa de encontrar um parque de campismo fosse mais fácil. Mapa na mão e seguimos em direcção à saída de Meknés.

Mas não poderíamos deixar esta cidade sem uma boa aventura para contar. Próximo episódio: encontro imediato com a polícia marroquina...

Camping Belle Vue, Meknés

Acordámos relativamente cedo e começámos a arrumar a tralha, não sem antes tomar um pequeno almoço consistente. Antes de seguir rumo a Meknés, demos umas voltas pelo parque de campismo, com o proprietário como guia, a mostrar-nos as obras de melhoramento e os terrenos anexos que tinha adquirido com a intenção de ampliar as instalações.

Havia um restaurante e um bar inactivos com umas esplanadas com fontes e fontezinhas, decoradas com mosaicos geométricos. Parecia tudo abandonado, com vegetação a crescer, desordenadamente, por todo o lado. Subimos a uma das varandas panorâmicas de onde se podia avistar Meknés, pois o parque ficava numa zona mais alta e a cidade numa longa planície, bem como campos imensos de oliveiras.

Despedimo-nos do simpático senhor e saímos em direcção a Meknés. Fica aqui o registo da abordagem do não-tão-simpático cão de guarda do Parque de Campismo...

Chegada a Meknés

Chegámos a Meknés ao final da tarde. Procurávamos um parque de campismo e acabámos, sem querer, por entrar para o centro da cidade. Sabíamos que havia (ou tinha havido) um parque de campismo no centro, mas não conseguimos encontrar qualquer indicação. Andámos completamente perdidos por avenidas enormes de trânsito caótico e decidimos parar para pedir orientações a um polícia. Como não tinha conhecimento de nenhum parque de campismo por ali, pedimos-lhe indicações para um posto de turismo. Num francês um tanto ou quanto estranho, disse-nos qualquer coisa como isto: "no décimo segundo semáforo viram à direita, depois no nono semáforo viram novamente à direita e depois no sexto à esquerda."

Bem, lá fomos avenida acima a contar semáforos e, como é óbvio, perdemo-nos no meio de tanto semáforo e pseudo-semáforo. Acabámos por encontrar a enorme praça onde, supostamente, estaria situado o posto de turismo, mas já não estava. Tinha mudado as instalações sabe-se lá para onde. Ao menos ficámos a conhecer esta praça, denominada Place Administrative, que de outra forma, provavelmente, não conheceríamos. Ficava na "Ville Nouvelle" e, como íamos dispender apenas de uma manhã para visitar Meknés, optámos pela Medina e pela Cidade Imperial.

Decidimos então sair da cidade e procurar um outro parque de campismo que sabíamos ficar a cerca de 14 km de Meknés, na estrada para Moulay Idriss. Atentos ao conta-quilómetros lá fomos nós em busca do parque perdido e, depois de nos perdermos novamente e de passarem mais de 14 km, fizemos inversão de marcha e encontrámos um pequeno parque, com um certo ar de abandonado, de seu nome "Belle Vue".

Estava a preparar-se para o início da época alta, a fazer algumas obras e ainda sem electricidade, explicou-nos o simpático proprietário que se prontificou logo para puxar uma extensão de um gerador, para a nossa tenda. Ainda nos arranjou uma mesa e duas cadeiras para montar esplanada. Os únicos ocupantes do parque eram dois rapazes, cada um com uma Renault 4L de matrícula francesa.

As casas-de-banho tinham louças e azulejos novos, mas o trabalho dos pintores foi tão eficiente, que se avizinhava ali uma tarefa árdua para retirar os milhares de pingos de tinta branca espalhados pelos azulejos, pelo chão e pelas louças... A noite já estava a cair e, depois de montarmos a tenda, começámos a preparar uma refeição quentinha, que caiu que nem ginjas, depois de um dia inteiro a comer sandes e fruta. E, finalmente, o merecido descanso, depois de uma longa jornada... hora para relembrar a viagem e ver as fotos do dia.

Uma bela noite de primavera, no meio do campo, a respirar ar puro, na nossa caminha de férias. Acampar é de mais! Seguiram-se umas belas horas de descanso merecido, até o sol raiar...