O outro lado de Fez...

Fez é, sem dúvida, uma cidade fascinante, com imenso património histórico e cultural, ou não fosse classificada pela UNESCO. No entanto, não poderia deixar passar em branco a miséria que está à vista de qualquer turista minimamente atento.
Fez integrou a lista de Património da Humanidade em 1981. Não sei qual seria o estado da medina nessa altura mas, tendo em conta os padrões exigidos actualmente aos candidatos, a deteriorização é bastante significativa. Algumas ruas, principalmente onde se faz comércio, são sujas e muitas construções encontram-se num elevado estado de degradação. Na maioria dos casos, pinta-se o rés-do-chão, "para inglês ver", e deixa-se completamente ao abandono os restantes andares. As portas e janelas de madeira, de grande riqueza artística, não têm qualquer tratamento e estão-se a desfazer...
O rio que atravessa a medina é qualquer coisa de surreal. Apesar de ter consciência do estado de poluição do nosso planeta, fiquei chocada com tanto lixo e, pior do que isso, com pessoas descalças a atravessarem-no. O rio está praticamente camuflado no meio das ruelas e foi através de um buraco num muro que o conseguimos visualizar...
Mas pior do que a miséria do património cultural e natural, é a pobreza do povo, principalmente dos idosos que são os mais afectados (como em todo o lado) e os que mais se vêem a pedir esmola. Aqui pede-se um bocado de pão, algo que possa, não alimentar e nutrir, mas, simplesmente, ajudar a atenuar a fome...

Tráfego de burros em Fez

Apesar de Fez ser o maior espaço urbano mundial livre de carros, não se pode dizer que não tenha trânsito. Tem e, nalgumas ruas, bastante caótico. No entanto, não se trata de tráfego automóvel, mas de carroças, bicicletas, carrinhos de mão e, essencialmente, burros.
O burro é um animal em vias de extinção no mundo, mas esta estatística não se aplica, com certeza, em Marrocos. Quase todo o marroquino tem o seu burro de carga, que deambula pela medina, cambaleando, muitas das vezes, devido ao excesso de peso.
É o principal meio de transporte no interior da medina, levando, amiúde, ao congestionamento das ruas estreitas. Aos peões, por seu turno, é solicitada a máxima atenção para se desviarem a tempo de se salvarem de um atropelamento ou de uma pisadela de um casco...

É frequente ouvir-se um "hei" de alguém que avisa os transeuntes da passagem de um asno puxado pelo seu apressado dono. Tal como em todo o mundo, quando se fala de negócios, tempo é dinheiro... E em Marrocos não é excepção, ou não fossem os marroquinos comerciantes obstinados. Mas não só na medina deambulam burros. Mesmo nas ruas e avenidas da cidade, se vêem, guiados pelos seus donos, os pobres animais de carga a atravessar as movimentadas artérias.

As alcaçarias de Fez

Um dos lugares mais emblemáticos da Medina de Fez são as Alcaçarias, que ficam mesmo no centro da medina. Devido ao seu cheiro intenso e um tanto ou quanto nauseabundo, em alguns locais foram retiradas do centro e colocadas fora das cidades, como acontece em Marraquexe. Mas em Fez continuam a ser um dos ex-lybris da medina e local de visita obrigatória. As peles de animais (ovelhas, cabras, vacas e camelos) são sujeitas a vários tratamentos: Primeiro removem-lhes os pêlos e restos de carne e emergem-nas numa solução de casca de romãzeira ou de mimosa. Depois são lavadas em grandes quantidades de água e amaciadas em soluções gordurosas. Este tratamento é feito em tinas caiadas de branco.
Depois de amaciadas, as peles são tingidas nas enormes tinas. Apesar de hoje em dia já se usarem tintas químicas, as tintas naturais ainda são usadas pelos artesãos marroquinos.

As peles curtidas são penduradas a secar nos terraços da medina, ou noutros locais como telhados e encostas em redor da cidade: Segundo o guia, a cor amarelada é conseguida com açafrão e o vermelho com papoilas. A vista privilegiada para as tinturarias é conseguida através de um terraço de uma loja de peles. Quando começámos a subir as escadas deram-nos logo um raminho de hortelã para colocar junto às narinas, para ajudar a disfarçar o cheiro... ajuda bastante, acreditem, ou tornar-se-ia insuportável! É pena o video não ter cheiro:

Depois descemos até à cave onde estavam os artesãos que transformavam as peles em artigos, tais como sapatos, malas, casacos, pufes, entre outros...

E, finalmente, convidaram-nos a dar um passeio pela loja, que era enorme, repleta de artigos de couro, para adquirirmos qualquer coisinha. Como era tudo mais caro do que já tínhamos visto noutros locais da medina, agradecemos a visita e seguimos viagem...

Ao sair da loja, um grupo de pessoas cantava, tocava e dançava, alegremente...

Fez, capital cultural e religiosa

Fez é considerada a capital cultural e religiosa de Marrocos. Aquela que é considerada a mais antiga universidade do mundo, a Universidade Corânica Quaraouiyine, fundada em 859, fica situada no coração da medina. O ensino do corão é feito desde tenra idade nas medersas, escolas religiosas com alunos residentes, uma espécie de colégio interno... O Mohamed levou-nos a visitar uma escola especialmente vocacionada para as artes, onde se ensinavam alguns dos ofícios milenares que ainda hoje se podem encontrar nas oficinas da medina. A escola tinha pormenores arquitectónicos e artísticos muito interessantes, apesar de o seu estado de conservação, nalguns casos, não ser dos melhores:
Portas de madeira pintadas
Azulejos geométricos
Vitrais
Janelas com ferro forjado
Colunas com capitéis mouriscos

Arcos trabalhados

E um belo jardim, com vista para a medina
Quando estávamos a sair da escola, encontrámos o director que, ao saber que éramos portugueses, não resistiu a nos dar uma aula de História sobre os nossos conterrâneos no Norte de África... Ah, e a pedir a devida contribuição pela visita à escola...
A medina El-Badi tem mais de mil mesquitas. Como são interditas a não-muçulmanos, não pudemos visitar nenhuma, mas até vê-las de fora não foi fácil. É que as ruas são tão estreitas que as mesquitas se encontram praticamente camufladas. De vez em quando lá reparávamos numa porta de decoração mais elaborada e, ao olhar para cima, víamos o minarete ao alto...
À hora certa, lá se ouvia a chamada para a reza nos altifalantes, e o movimento tornava-se mais apressado em direcção à mesquita mais próxima...

A medina e os "souks" de Fez

Entrámos na medina El-badi, a parte mais antiga da cidade de Fez, por uma das portas que transpõem os 25 km de muralhas. As suas mais de 9000 ruas e ruelas labirínticas fazem deste o maior espaço urbano livre de carros, a nível mundial. Segundo se consta, até mesmo as 500 mil pessoas, que ali vivem e trabalham, se perdem, por vezes. No entanto, confiámos no Mahomed para nos guiar pelos locais que pretendíamos visitar e levar-nos de volta à entrada, pois claro...
E lá fomos, deambulando pelas ruas, muitas delas verdadeiros centros comerciais, onde tudo se vende, e centros artesanais, onde tudo se fabrica. Vêem-se imensas oficinas, de porta aberta, que nos mostram os trabalhos diversos dos artesãos de Fez, desde o fabrico de portas e janelas de madeira esculpida, tecelagem em teares manuais, artigos em couro ou ferro forjado, etc.
Os souks estão localizados segundo uma hierarquia, atribuída aos diversos produtos que neles se vendem. Os ofícios estão agrupados e cada um tem a sua rua. Assim há souks destinados a:
Tecidos
Artigos em pele
Tapetes Artigos em cobre ou latão E aos mais diversos produtos alimentares, alguns, porém, de aspecto duvidoso...
Queijo fresco

Cereais e leguminosas

Ovos e cereais

Caracóis
Carne Peixe
Produtos não identificáveis... E ainda fruta, que decidimos comprar para o lanche.

Mohamed, o guia da Medina de Fez

Acordámos cedinho e dirigimo-nos para Fez, a segunda maior cidade de Marrocos, com cerca de um milhão de habitantes (a maior é Casablanca com mais de três milhões).
Apercebemo-nos logo que não seria fácil chegar à Medina, pois a sinalização não era das melhores e as nossas 2 ou 3 tentativas para pedir indicações sairam furadas, pois não encontrámos ninguém que falasse uma língua europeia... Decidimos, então, estacionar o carro numa avenida conhecida (para que depois fosse fácil encontrá-lo) e apanhar um "petit taxi" para a medina. Em Fez os táxis são vermelhos e, como por todo o país, da marca "Fiat Uno", com uns 15 ou 20 anos.
Assim que saímos do táxi, um rapaz com os seus 17 ou 18 anos (já com bigode), abordou-nos oferecendo os seus préstimos como guia, o que aceitámos de imediato, pois a medina de Fez, mais do que qualquer outra em Marrocos, é conhecida por ser labiríntica, ou não fosse o maior espaço urbano, a nível mundial, livre de carros (motorizados, porque carroças não faltam). Acordámos um preço, 50 dirhams (cerca de 5 euros) e o Mohamed prometeu mostrar-nos tudo aquilo que pretendíamos ver, em cerca de três horas. Ainda disse que no final, se gostássemos, podíamos dar mais qualquer coisinha... O rapaz falava uma mistura de Espanhol, Francês e Inglês. Não falava bem nenhuma das línguas, mas conseguia fazer-se entender em quase tudo o que pretendia dizer, começando uma frase numa língua e terminando noutra, com palavras de uma terceira pelo meio. A falar é que a gente se entende... Ah, e no final, em vez de 50, demos-lhe 80 dirhams.

Camping Diamant Vert, Fez

Chegámos às imediações de Fez e procurámos o Parque de Campismo Diamant Vert, que ficava a poucos quilómetros da cidade. Não foi difícil encontrá-lo e ficámos logo deslumbrados com o lugar, fazia jus ao nome e tinha verde por todo o lado: muitas árvores, espaços relvados e jardins. No meio do arvoredo, um grande lago artificial estendia-se ao longo do parque.
Montámos a tenda e fomos dar uma volta para conhecer o parque, que nos parecia extenso. E era mesmo. Ao fundo da zona de campismo tinha várias piscinas e escorregas dos quais podíamos usufruir. Era uma espécie de parque aquático, muito concorrido durante os meses de verão, segundo nos informaram na recepção. Havia umas 7 ou 8 piscinas, algumas com escorregas, outras infantis, mas a maior parte ainda vazia e em manutenção. Apenas uma grande piscina se encontrava aberta e falámos logo em passar por lá no dia seguinte, durante a tarde, pois o sol já se estava a pôr e estava um tanto ou quanto fresquinho para mergulhos.
Continuámos o nosso passeio até ao restaurante do parque, que mais parecia um salão de baile. Na parte exterior havia um palco fixo, com um pequeno anfiteatro, onde se deviam fazer grandes festas no verão. Um pouco mais à frente um repuxo em forma de pirâmide jorrava água por todos os lados.
Atravessámos a ponte do lago e demos com um parque infantil, onde não resistimos a andar nalguns baloiços e tirar a foto para a posteridade. A passear pelo parque, com a maior naturalidade, viam-se alguns animais, essencialmente patos e gatos. Aproximavam-se de nós, sem qualquer receio, demonstrando estarem já bastante habituados aos campistas.
No Parque de Campismo de Meknés tivémos um "Cão Danado", neste tivémos um "Pato Bravo"...

Voltámos para a tenda e começámos a fazer o jantar, que já se fazia tarde. Preparámos uma bela pasta de atum e cogumelos e deliciámo-nos a comer. A noite estava a cair e aqui e ali, ao longo do lago, ouvia-se uma ou outra rã a coaxar. Um gatinho branco e amarelo aproximou-se da tenda e andou a meter o bedelho no alguidar da louça. Decidimos, então, adoptá-lo por dois dias. Ainda tivemos a tentação de o trazer, mas achámos que poderia haver algum entrave na fronteira. Afinal de contas, era mais um imigrante clandestino sem qualquer documento, que abandonaria África e tentaria entrar na Europa...
O som das rãs, à medida que anoitecia, foi-se tornando cada vez mais intenso e à hora em que nos fomos deitar era já ensurdecedor... Como é que íamos adormecer com aquele barulho surreal de dezenas (ou centenas) de rãs!?! Não foi fácil e aqui fica uma pequena amostra (gravada no interior da tenda...). Só ouvido, contado ninguém acredita...